História de trancoso II - O pé de péia

Após a publicação do História de Trancoso I, segue História de Trancoso II - O pé de péia.

Na cultura nordestina péia é excesso de pele, pele descamada ou pelanca. Também é o mesmo que pé de peia ou diabo. Peia significa corda, tiras ou qualquer outro acessório para prender os pés dos animais para evitar que ele corra. No nordeste tanto pé de péia quanto pé de peia significam diabo ou satanás.

A serraria ficava em um terreno gramado e com alguns pés de mamonas, longe das casas, em um pequeno vilarejo suburbano. Não havia muro e da rua de terra batida dava pra ver o galpão e ouvir o barulho característico da produção industrial. Era um galpão de aproximadamente 5 metros de altura por 7 metros de comprimento por 5 metros de largura. Havia algumas janelas laterais e um portão principal de acesso também em madeira, única entrada para o recito. Os serões para correr com a produção atrasada virava a noite, geralmente da sexta para o sábado, quando findava o prazo de entrega dos artesanatos. Eram duas linhas de produção, uma de jangadas de madeira e outra de entalhes em madeiras, que chamávamos de "talha". Eu era da produção de jangadas, que chamávamos de "barcaça". Na verdade eram aqueles quadros entalhados e pintados em um pedaço de tábua e aquelas jangadinhas de madeira usadas para enfeites sobre so móveis. Mas as nossas eram toda de madeira desenhada, lixada, polida, lustrada e envernizada. Não tinha vela de tecido, como algumas. Essas até a vela era de madeira com lados côncavo e convexo como se tivesse sendo soprada pelo vento. Nosso serviço era lixar, polir, lustrar e montar as peças componentes do artesanato, que eram presas por meio de linha zero branca, contrastando com o marrom-vermelho da madeira de lei (sucupira, maçaranduba, imburana). O silêncio da noite era quebrado com chi-chi-chi da lixa, o voum-voum-voum do rolo de polir e o barulho carcomido (toc-toc, trooc-toc, toc-trooc-toc) dos batedores de madeira nos cabos dos formões entalhadores. O portão principal ficava aberto a noite toda. Naquela época defender a família, os bens e a própria vida dos possíveis bandidos era um dever do cidadão e todos os adultos andavam armados. E por isso nunca houve um assalto nesse ambiente.

Neguinho estava alegre como sempre e começou a cantarolar:

-"Quando eu fui créançaaa de barriga secaaaaa........!".

Maro, o encarregado das barcaças, interrompeu:

-"Eu tenho uma história de trancoso pra contar".

Um coral foi entoado:

-"Conta! Conta! Conta!..."

Maro prosseguiu:

-"Na década de 50, um caixeiro viajante, que vendia perfumes, voltava da última cidade no interior nordestino. Viajava com dois cavalos: o que montava, com duas sacolas de mercadorias, e o que trazia rebocado, preso ao da montaria, carregando seis sacolas, três de cada lado, todas cheias de mercadorias na ida e vazias na volta. Já era noite, mas o caixeiro decidiu seguir viagem mata a dentro. Um atalho que ele só pegava durante o dia, mas como estava muito casando e com vontade de chegar em casa, resolveu ir por esse atalho dentro da mata. Sua casa ficava ainda há umas dez cidades e vilarejos, mas com o atalho, encurtaria metade do tempo. Toda vez que o caixeiro passava por esse atalho, via uma cabana no meio da mata. A cabana era de taipa e coberta de telhas cerâmicas apoiadas sobre gravetos tirados da mata. À frente, havia apenas uma porta e uma janela de tábuas brutas com frestas. A cabana era velha e abandonada e não se via nenhum habitante na cabana e nem nas redondezas. Na parte da frente também havia um batente de terra batida escorado com tábuas brutas e gravetos fincados no solo. 

A noite era de lua cheia e iluminava o estreito caminho por dentro da mata através das folhagens. O caixeiro já estava com as pestanas colando uma na outra e pensou até em parar um pouco e dormir ali mesmo, na beira do caminho. Daí a pouco o potóco-potóco-potóco dos cavalos se misturaram com um som de forró que vinha de mais adiante. Ora o caixeiro ouvia o pum-pum-pum da zabumba, ora ouvia o tilingo-tingo-tingo do triangulo, ora ouvia fom-fom-fom da sanfona e ora ouvia o cantor. A música de Luiz Gonzaga dizia:

Luiz Gonzaga era febre no nordeste. Todo forrozeiro tinha obrigação de tocar o mestre do baião. A música ficava cada vez mais alta a medida que o caixeiro cavalgava por entre a mata. Logo avistou a cabana clareada com a luz dos candeeiros. "Parece ter muita gente nesse forró. Tô tão cansado de cavalgar, porque não paro um pouco aí, tomo umas, danço um forró com alguma nega?". Atraído pelos sons, falas e risos de mulheres decidiu entrar. Cavalgou até próximo a porta, amarrou o cavalo que cavalgava com o outro preso na cela em um toco que tinha perto da cabana e entrou. O forró estava animado, com alguns casais dançando, alguns homens e mulheres nos cantos bebendo, rindo, fumando e conversando e, do lado da porta interna que dava para a cozinha, o trio que tocava o baile. Mas havia algo estranho. Parecia mais um sonho. As pessoas apareciam e desapareciam da sua vista e havia uma névoa que embaçava a visão. Por mais que mirasse nos rostos não conseguia ver com nitidez. Os sons pareciam ir e voltar, como ocorre com uma pessoa que está com muito sono. O caixeiro então resolveu ficar de pé perto da porta apenas observando, para ver no que ia dar. Mirou no trio de tocadores e percebeu algo ainda mais estranho. O tocador de triangulo ficava no meio. Era um cara magro, de olhos esbugalhados. O zabumbeiro era um homem negro, alto e gordo. Todos usavam alpercatas de couro cru e estavam de pé, exceto, o sanfoneiro. Este era moreno escuro, cabelo curto, bigode pequeno, magro, usava um paletó preto sobre uma camisa vermelha e uma calça branca. Tocava sua sanfona sentado em uma cadeira de madeira. O estranho é que não tinha calçados em seus pés. As calças estavam arregaçadas (com as bainhas dobradas) até o meio das canelas e deixava ver umas peles brancas descamando dos dois pés. Parecia uma cobra mudando de pele. Eram umas cascas secas grandes que saiam da pele e chegavam a enrolar. Essa coisa chamava a atenção, mesmo porque ele marcava o compasso da música com o pé direito, mas ninguém parecia se importar. Outra coisa estranha é que apesar do arrasta pé no piso de terra batida, não havia poeira no local, mas apenas uma névoa embaçante, parecida com vapores de água densa suspensos no ar. A música não parava, mas o caixeiro já não estava mais entendendo o que se tocava e o que se falava. O sanfoneiro pé de péia faz um sinal para alguém próximo ao caixeiro. Era uma mulher bonita, pela clara, cabelos longos e pretos, vestido vermelho com um grande decote que mostrava parte dos fartos seios. A mulher atende ao aceno do sanfoneiro e se dirige para o caixeiro e o convida para dançar. O caixeiro ainda não tinha visto essa mulher no recinto, mas ignorou o mistério e começou a dançar. Ora sentia o corpo da mulher, ora não sentia nada, como se tivesse dançando sozinho. De repente, eles percebe que a mulher não está dançando mais com ele. Olha para os lados: ninguém. Dá um giro de 360 graus: ninguém. A música para. Não se escuta mais som algum. Volta seu olhar para o trio de forrozeiros e só vê o sanfoneiro sentado em sua cadeira de madeira de pés redondos. O sanfoneiro segurando a sanfona no colo, levanta os dois pés do chão de terra batida, inclina a cabeça para trás e dá uma gargalhada:

-"A-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!"

E desaparece.

Os dois candeeiros que iluminavam o recinto também desaparecem. Fica tudo no escuro, apenas com a luz da lua entrando pela porta. O caixeiro percebe que está sozinho ali. Nesse momento bate um pânico, um arrepio, um frio congelante na coluna. O caixeiro corre desesperado para fora da cabana. As pernas tremiam tanto que não conseguia andar. Os joelhos batiam um no outro e o coitado levou duas quedas até chegar ao cavalo. Apavorado, puxa a corda que amarava o cavalo, se pendura na sela ao lado do animal e espora o cavalo na coxa para que ele saia desembestado dali. Cavalgou por algum tempo pendurado do lado do animal com as pernas ainda tremendo, até que consegui subir na sela. Cavalgou a noite toda catatônico, com o olhar fixo à frente, sem olhar para os lados ou para trás. Só parou quando o dia amanheceu e conseguiu chegar ao primeiro vilarejo após a mata. Havia uma bodega onde o caixeiro sempre fazia suas refeições regada a cachaça da boa. 

Ao contar o que tinha presenciado para o dono da bodega, soube que ali morava um homem com as mesas características que ele tinha presenciado. A cabana era um cabaré e havia um forró toda sexta-feira. As putas eram esposa e filhas. Mas um dia o patriarca resolveu fazer um pacto com o diabo para ficar rico. Começou a ganhar dinheiro com joias que achava na trilha dos caixeiros. Eles sonhava onde estavam as joias perdidas e durante o dia ia buscar. Mas não cumpriu com o pacto, que era de fazer de sua própria mãe uma oferenda, matando-a em um ritual e bebendo seu sangue. E por causa disso apareceram uma alcateia de lobos-guarás e devoraram todos os integrantes daquela família (as três filhas, o pai a mãe e a avó). Todos foram estraçalhando e devorados, restando apenas alguns pedaços espalhados pelo chão".

Nesse momento todos já estão em pânico na serraria. Um artesão corre para fechar o portão. Outro fecha as duas janelas. E todos permanecem calados por toda noite de árduos serviços. 


Imagem de Christian B. por Pixabay


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