História de Trancoso
E é mesmo. Comecei a trabalhar aos 12 anos de idade numa serraria que fabricava artesanatos em madeira, mais especificamente, entalhes e pequenas jangadas para enfeites. Geralmente éramos convocados para fazer serão, para que a produção encomendada pudesse ser concluída no tempo combinado pelo proprietário. E o serão durava a noite toda. Passávamos a noite trabalhando até dia raiar. Apesar do sacrifício o salário praticamente dobrava ao final do mês. Lá pras tantas, o sono e o cansaço começavam a dominar e era nesse momento que entrava em ação o Neguinho. Neguinho era um jovem de 16 anos e o que tinha de miserável e sacrificado tinha de alegre. Uma energia boa e contagiante. Com o cansaço, as pestanas colavam uma na outra, as costas doíam, os dedos esfolavam na lixa que esfregava na madeira e nos nós da linha zero que amarrava as peças da pequena jangada. E era nesse momento mais penoso das nossas vidas que Neguinho contava as suas Histórias de Trancoso:
-"Na floresta, moravam em uma casinha de taipa e coberta de palha a avó e sua netinho de 12 anos. Certa tarde a avó disse para o seu neto:
-Menino, vai pegar madeira que daqui a pouco escurece e a gente precisa de lenha para fazer o café. O fogão à lenha utilizado só tinha cinzas e a avó estava preocupada. O menino que era muito preguiçoso pegou o machado e o cachorro e adentrou a mata para procurar lenha. E tinha que ser madeira bem seca porque não havia tempo para deixar secar. Mas chegando a beira de um riacho e sob a sombra de um pé de ingá, o menino falou para o cachorro:
-Vamos descansar só um pouquinho e aproveitar essa sombra.
No entanto, o menino acabou dormindo e quando acordou já era noite. Preocupado, pegou o machado e o cachorro e apressou-se em ir para casa. Á noite é perigosa na floresta porque tem onças que saem à noite para caçar. Chegando em casa a velha estava fumaçando de raiva e com um cipó de goiabeira verde na mão, mas o menino tentou explicar:
-Eu não achei lenha não vó, procurei por todo canto e não achei...
A avó disse: -Você tava foi dormindo seu cabra safado, vou tirar seu coro...
O menino retrucou: -Tava não, vó, eu tava procurando, passei a tarde toda procurando lenha, não tava dormindo, nãaaaaaaaaaaao!
Aí o cachorro disse:
-Ele tava dormindo que eu vi...
Daí o menino corre pega o machado e vai danar no cachorro. Aí o machado diz:
-Vá com essa brincadeirinha e o cachorro me morda, viu?"
São essas pérolas culturais que marcam a vida do nordestino e a torna mais doce e suportável.
