História de Trancoso

Segundo a publicação HISTÓRIAS DE TRANCOSO COMO TRADIÇÃO DE PASSATEMPO define  “História de Trancoso” assim: "...é um termo êmico utilizado em boa parte do Nordeste brasileiro para referir-se a contos da literatura oral, inclusos no que convencionou-se chamar de cultura popular. Essas narrativas foram ao longo dos anos tomando forma de práticas recreativas, entendidas na tradição como passatempo tanto no âmbito da vida privada familiar quanto em alguns espaços coletivos.".

E é mesmo. Comecei a trabalhar aos 12 anos de idade numa serraria que fabricava artesanatos em madeira, mais especificamente, entalhes e pequenas jangadas para enfeites. Geralmente éramos convocados para fazer serão, para que a produção encomendada pudesse ser concluída no tempo combinado pelo proprietário. E o serão durava a noite toda. Passávamos a noite trabalhando até dia raiar. Apesar do sacrifício o salário praticamente dobrava ao final do mês. Lá pras tantas, o sono e o cansaço começavam a dominar e era nesse momento que entrava em ação o Neguinho. Neguinho era um jovem de 16 anos e o que tinha de miserável e sacrificado tinha de alegre. Uma energia boa e contagiante. Com o cansaço, as pestanas colavam uma na outra, as costas doíam, os dedos esfolavam na lixa que esfregava na madeira e nos nós da linha zero que amarrava as peças da pequena jangada. E era nesse momento mais penoso das nossas vidas que Neguinho contava as suas Histórias de Trancoso: 

-"Na floresta, moravam em uma casinha de taipa e coberta de palha a avó e sua netinho de 12 anos. Certa tarde a avó disse para o seu neto: 

-Menino, vai pegar madeira que daqui a pouco escurece e a gente precisa de lenha para fazer o café. O fogão à lenha utilizado só tinha cinzas e a avó estava preocupada. O menino que era muito preguiçoso pegou o machado e o cachorro e adentrou a mata para procurar lenha. E tinha que ser madeira bem seca porque não havia tempo para deixar secar. Mas chegando a beira de um riacho e sob a sombra de um pé de ingá, o menino falou para o cachorro: 

-Vamos descansar só um pouquinho e aproveitar essa sombra.

No entanto, o menino acabou dormindo e quando acordou já era noite. Preocupado, pegou o machado e o cachorro e apressou-se em ir para casa. Á noite é perigosa na floresta porque tem onças que saem à noite para caçar. Chegando em casa a velha estava fumaçando de raiva e com um cipó de goiabeira verde na mão, mas o menino tentou explicar:

-Eu não achei lenha não vó, procurei por todo canto e não achei...

A avó disse: -Você tava foi dormindo seu cabra safado, vou tirar seu coro...

O menino retrucou: -Tava não, vó, eu tava procurando, passei a tarde toda procurando lenha, não tava dormindo, nãaaaaaaaaaaao!

Aí o cachorro disse:

-Ele tava dormindo que eu vi...

Daí o menino corre pega o machado e vai danar no cachorro. Aí o machado diz:

-Vá com essa brincadeirinha e o cachorro me morda, viu?"

São essas pérolas culturais que marcam a vida do nordestino e a torna mais doce e suportável. 




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