Você confia em quem conhece ou em quem acha que conhece?
Como já morei em favela e agora na orla, aprendi uma coisa interessante: enquanto na orla você deve ter cuidado com quem você não conhece, na favela você deve ter cuidado com quem você conhece. Um colega conheceu um italiano rico, simpático, amigo, investidor e em busca de um sócio invejoso, olho grande e ambicioso que queira ter a maravilhosa vida que ele tem. Não sei como ainda tem gente que acredita nessas tranqueiras que ficam se exibindo em redes sociais como se fossem ricos, felizes, saudáveis, inteligentes (o português de escola pública e sistema de aprovação automática denuncia, mas quem quer saber...) e bem-sucedidos. Mas se não acreditassem no mínimo seriam mais inteligentes que as tranqueiras, confere?
O cara propôs um negócio "das arábias": abrir uma importadora. Óia só? Quem não quer deixar aquele emprego chifrim, ganhando uma ninharia e virar empresário de sucesso do dia para noite? Pois é. Após pedir demissão da empresa em que trabalhava com xingamentos e desdéns, entrou no negócio de cabeça. Em pouco tempo lá estava o mais recente rico em ascensão social galopante se exibindo nas redes sociais para parentes, amigos e antigos colegas de trabalho. Mas o negócio na verdade era contrabando e lavagem de dinheiro do tráfico. E em pouco tempo o empresário de sucesso virou criminoso em cumprimento de pena.
Já em outra situação, estavam em um bar de periferia quatro amigos de infância. Criados juntos na favela e agora na casa dos vinte, os amigos se conheciam muito bem e sabiam do que cada um era capaz. Pequenos delitos ali, outros não tão pequenos aqui, o fato é que nenhum deles se considerava bandido de verdade, mas viam esses delitos como uma brincadeira ou mesmo esperteza. Talvez só para tomar uma cervejinha... Daí um deles perguntou: "-quem tem carteira de habilitação aí"? O mais calmo da turma, único que estudava e trabalhava de carteira assinada, levantou a mão: "-Eu". Foi quando o talzinho falou que estava com um carro emprestado de um amigo e queria dá uma volta com os amigos. O amigo habilitado topou na hora. Afinal não é todo dia que um morador da favela pode sair num carrão e impressionar umas minas. Mas quando dobrou numa esquina, uma blitz. O que emprestou o carro ficou gritando para não parar: "-para não, para não...". O motorista acelerou, mas desistiu e parou. "-Correr por quê? Não devo nada". Pensou ele. O carro era roubado e o motorista foi preso em flagrante. Não deu nada para os outros. Para a polícia, se ele estava dirigindo então foi ele quem roubou o carro. Dois anos preso e sem nenhum bem, já que a mãe teve que vender o barraco em que moravam para pagar advogado, viu sua vida ser destruída por confiar em quem conhecia e considerava.
Devemos aguçar nossa capacidade de raciocinar, mas é a sabedoria que nos faz inquirir, analisar, inquirir e perceber perigos não vistos pela maioria das pessoas.
"Portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mateus 10:16)
E você? Confia em quem conhece ou em quem acha que conhece?
